Nova safra do terror nacional mostra sua força

Para cineastas que se dedicam ao gênero, o que faltava ao mercado no Brasil eram produtores e distribuidores que fizessem esta aposta

Cena de filme do diretor Rodrigo AragãoCena de filme do diretor Rodrigo Aragão - Foto: Divulgação

Entre os filmes que disputam o Oscar neste domingo (4) está "Corra!". O longa, que concorre nas categorias melhor filme, diretor (Jordan Peele), ator (Daniel Kaluuya) e roteiro original, recorre ao gênero terror para fazer um comentário sobre racismo e crises sociais.

O cinema de gênero costuma ser visto com desconfiança no mercado, então a presença de um filme de terror em um dos maiores eventos do cinema indica o vasto potencial comercial e artístico do gênero. No Brasil, embora exista uma rica história de filmes e diretores, sendo José Mojica Marins, o Zé do Caixão, um dos autores mais celebrados, o cinema de gênero ainda não parece estar firmemente posicionado enquanto obra de arte.

Em cartaz desde a última quinta-feira, "Motorrad" é exemplo de um tipo de filme de terror pouco visto no cinema comercial brasileiro: o slasher, com assassinos mascarados. O longa foi exibido no Festival Internacional de Cinema de Toronto, no Canadá, e já tem os direitos vendidos no mercado estrangeiro. "O filme já funcionou com as vendas internacionais. Descobrimos que o cinema de gênero no Brasil é viável", diz Danilo Beyruth, quadrinista que trabalhou no conceito visual e enredo.

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"Está tendo uma nova onda de gênero no Brasil", opina Vicente Amorim, diretor de "Motorrad". "Dizem que não tem filme de gênero porque não tem público. O que faltava eram produtores, realizadores, roteiristas e distribuidores a fim de fazer essa aposta", ressalta. "Só que no Brasil o gênero é encarado por produtores, público e até parte dos cineastas e críticos como uma coisa que não é para cineastas sérios", diz.

A atual safra de cinema de terror brasileiro sugere vigor e diversidade. "Mata negra", quinto filme do capixaba Rodrigo Aragão, estreia em maio. O diretor se destacou em sua estreia, "Mangue negro" (2008), e seguiu seu projeto de cinema com "A noite do Chupacabras" (2011) e "Mar negro" (2013). Outro projeto interessante é "By demon's will", longa em desenvolvimento pela diretora catarinense Cíntia Domit Bittar, autora que trata o terror a partir de sua condição cotidiana e psicológica.

Distribuição versus recepção

Trabalhar com cinema de gênero implica lidar com um desequilíbrio: embora tenha valor artístico, tende a ser encarado como algo inferior. "É uma relação de amor e ódio", diz Rodrigo. "O fã de cinema de gênero é apaixonado, militante, compra DVD, camisa, discute na Internet. A gente recebe paixão de um lado, mas por outro existe ainda preconceito. Pessoas que se recusam a ver um filme por causa da capa. Consideram um tipo de cinema menor", opina.

'Motorrad', de Vicente Amorim, é uma das estreias deste mês

'Motorrad', de Vicente Amorim, é uma das estreias deste mês - Crédito: Gui Maia/Divulgação



Financiamento e distribuição ainda são problemas. "A gente depende de políticas públicas. Mas é assim que se financia o cinema autoral em vários países. Às vezes dizem que 'só no Brasil se mama nas leis'. Vários países fomentam o cinema autoral e independente com dinheiro público, porque cinema autoral é estratégico. Trabalha a identidade do território, fala sobre as pessoas que habitam o país", ressalta Cíntia.

Entrar no circuito exibidor segue uma barreira no cinema brasileiro. "A gente tem poucas salas de cinema no Brasil", diz a diretora. "Desde os anos 1990 sofremos com fechamento de salas em pequenas cidades. O público quer consumir esse conteúdo. Mas tem uma mania de dizer que o povo não quer cinema independente. Frequento festivais em todo Brasil, inclusive no interior de Pernambuco, e vejo muita gente da própria comunidade indo", destaca.

Potencial além das fronteiras

O cinema de terror/horror tem o potencial de expandir fronteiras e transcender rótulos. Quando George A. Romero apresentou zumbis vagando por corredores de um shopping center em "Despertar dos Mortos" (1978); quando John Carpenter criou em "Eles vivem" (1988) uma realidade habitada por monstros e formas secretas de submissão; ou ainda quando Jennifer Kent revisa o conceito de luto e maternidade em "O Babadook" (2014): comentários sobre sociedade, política e costumes através do terror/horror.

"O cinema de horror é o gênero ideal para se trabalhar esses assuntos, porque você consegue através da fabulação tornar essas realidades mais compreensíveis para o público", opina Cíntia. "O gênero convida o espectador para dentro através da montagem, da direção, da temática. O maior exemplo está aí, concorrendo ao Oscar: 'Corra!', que traz uma pauta política forte, a questão racial", destaca a diretora.

"O terror tem papel crítico, fazer o público pensar, ser metafórico", diz Rodrigo. "Isso é fundamental, mesmo se trabalhando com fantasia. A fantasia é uma ótima maneira de fazer o público pensar na realidade. Tem 10 anos que lancei 'Mangue negro' e praticamente todos os lugares onde filmei estão fechados. Aquela história de que o 'mangue está morrendo' aconteceu, com o aumento dos níveis de poluição e a invasão descontrolada", ressalta.

No quintal de casa

A estreia de Rodrigo Aragão como diretor foi "Mangue negro" (2008), filme que conecta o gênero zumbi com a realidade de uma comunidade de pescadores. "Levei três anos produzindo. Foi feito por amigos, com orçamento baixíssimo", lembra Rodrigo. "Aprendemos a fazer fazendo. Foi feito no quintal da minha casa, onde pude experimentar coisas que sempre tive vontade de fazer", conta.

Em 10 anos, "Mangue negro" já foi exibido em mais de 100 países. "É uma prova que é possível fazer cinema mesmo contra todas as expectativas. É um projeto que quando começou mesmo as pessoas que me ajudaram não acreditavam que ia sair um dia. Gastamos R$ 60 mil, ao longo de três anos. Foi rodado em finais de semana, já que todo mundo trabalhava em outras coisas", detalha.

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Os filmes seguintes foram feitos com valores cada vez maiores. "Mata negra" está orçado em R$ 630 mil, do Fundo Setorial Audiovisual (FSA). Depois, virá o longa "Cemitério das almas perdidas" (R$ 2,1 milhões, do FSA e da Secretaria de Cultura do Espírito Santo). "O que muda com orçamento mais alto é o profissionalismo", opina Rodrigo. "Não tínhamos um padrão técnico de qualidade internacional. O salto de ter orçamento é conseguir um padrão de captação de imagem, som, pós-produção e edição competitivo", ressalta.

Estilo e autoria


"Faço um tipo de terror de fantasia. Acho que o Brasil é terreno fértil para a fantasia. Nossa cultura tem a questão folclórica muito forte", diz Rodrigo. "Moro em Espírito Santo, em uma cidade relativamente pequena, e fui criado em um ambiente de pescadores. Sempre me fascinou os 'causos' populares e acho que sempre quis colocar isso na tela", ressalta.

O cinema de Rodrigo está conectado com sua memória afetiva: as lembranças do cinema, os filmes marcantes. "Como passei a infância nos anos 1980, tenho apego grande por filmes como 'Um lobisomem americano em Londres' (1981) e 'A volta dos mortos-vivos' (1985). Sempre quis ver um filme nessa linha que se passasse no Brasil, com heróis com a cara do nosso povo", diz.

Cinema de Cíntia Bittar é associado a traumas, como pessoas possuídas e violência doméstica

Cinema de Cíntia Bittar é associado a traumas, como pessoas possuídas e violência doméstica - Crédito: Divulgação



Pavor e perigo a cada corte

O terror surge no cinema de Cíntia Domit Bittar de forma sutil, em geral associado a personagens que passam por algum tipo de trauma. Depois de se destacar com curtas como "O segredo da família Urso" (2014) e "A menina só" (2016), Cíntia trabalha no longa "By demon's will", sobre uma psicóloga que estuda pessoas que acreditam estarem possuídas, e no curta "Fogo nos olhos" (nome provisório), sobre a violência doméstica contra as mulheres do campo.

"Como ateia, acredito que as religiões e as crenças fazem com que a gente atribua ao fantástico, ao divino, aos seres do mal as coisas da nossa própria vida", diz Cíntia. "O que tento colocar nos meus filmes é que esse sobrenatural é consequência de atitudes humanas. Gosto de mostrar que nossos problemas estão aqui e agora", explica. "Me interesso em fazer cinema de terror a partir das pessoas. As pessoas me assustam", ressalta.

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Para Cíntia, a linguagem do cinema de terror é, às vezes, mais importante do que o próprio enredo. "Comecei como montadora, então me interesso por filmes que provocam sensações a partir da montagem. O tempo de duração dos planos importa demais para a pessoa sentir medo", explica.

Terror, sangue e VHS

A relação com o terror vem desde a infância. "Fui criança no final dos anos 1980 e início dos 1990, tinha muitos filmes de terror na televisão", lembra. "Cresci no interior de Santa Catarina e lá as salas de cinema viraram igrejas. Então eu era rato de locadora. Passava pelas prateleiras de infantil e aventura e ia direto para a de terror", explica.

"Gostava de ver as imagens das fitas VHS. Dava pausa só para ver se a cena tinha tripas e sangue. Para uma garota que morava fora do eixo, ver filmes de terror e tentar entender como eram feitom me aproximou muito da vontade de fazer cinema", ressalta.


 

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