''Senhora do Destino'': novelão emocional e amparado por uma grande vilã completa 20 anos
Na virada dos anos 2000, Aguinaldo Silva cansou de se repetir e criou o sucesso de maior audiência do horário das nove no novo milênio
Durante boa parte dos anos 1990, Aguinaldo Silva criou um verdadeiro modus operandi para escrever suas novelas das nove. ''Pedra Sobre Pedra'', ''Fera Ferida'' e ''A Indomada'' foram grandes sucessos de público e têm em comum a ambientação em alguma fictícia cidade nordestina, realismo fantástico, vilãs exageradas, boas doses de humor e açucaradas histórias de amor.
No entanto, na virada dos anos 2000, mais precisamente enquanto escrevia ''Porto dos Milagres'', Aguinaldo cansou do formato e de se repetir. Foi dessa vontade de mudar que surgiu o mote para ''Senhora do Destino'', maior audiência do horário das nove no novo milênio, com média geral de 50 pontos, e que completa 20 anos de exibição este mês.
''Queria me renovar e não aguentava mais escrever com toques de fantasia. Cheguei a pensar em largar as novelas caso a Globo pedisse uma outra produção do tipo. Tive carta branca de voltar a fazer tramas mais realistas. E foi justamente nos jornais que pesquei a base da novela'', conta o autor.
''Senhora do Destino'' é livremente inspirada no caso do menino Pedrinho, sequestrado de uma maternidade de Brasília por Vilma Costa, em 1986. O crime só viria a ser descoberto 16 anos depois. Na primeira fase da trama, em meio ao caos instaurado pela ditadura no Rio de Janeiro no final da década de 1960, a retirante pernambucana Maria do Carmo, de Carolina Dieckmann, acaba tendo a filha roubada pela interesseira Nazaré, de Adriana Esteves.
Quase 30 anos depois, Maria do Carmo, agora interpretada por Susana Vieira, já com seus quatro outros filhos criados Reginaldo, Viriato, Leandro e Plínio, de Eduardo Moscovis, Marcello Antony, Leonardo Vieira e Dado Dolabella , surge como uma bem-sucedida empresária de Duque de Caxias, município da Baixada Fluminense.
E com a ajuda de seus dois pretendentes, Dirceu e Giovanni Improtta, de José Mayer e José Wilker, continua a buscar pistas que a levem a Lindalva, sua filha desaparecida, papel também defendido por Dieckmann. ''Maria do Carmo é uma das mulheres mais fortes que já interpretei. O 'calo' dela era a ausência da filha. Ela se culpava muito por isso. O papel era um maravilhoso exercício emocional. Adoro fazer esses tipos'', ressalta Susana.
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Sem nem sonhar que foi roubada, Lindalva cresceu sendo chamada de Isabel por Nazaré, personagem de Renata Sorrah. Desbocada, exagerada, golpista e amoral, a vilã caiu no gosto do público por conta do desempenho macabro de Sorrah e do texto afiado imposto pelo autor.
''Aguinaldo é bom de vilã e Nazaré marcou muito. Até hoje as pessoas brincam comigo nas ruas e fazem referências à personagem. A repercussão foi e é surpreendente. Virou um comparativo para tudo o que fiz depois na tevê'', assume Renata.
Ao lado de Nazaré, outro tipo que ofuscou o resto do elenco foi Giovanni Improtta, bicheiro com ares de anti-herói interpretado pelo falecido José Wilker em 2013, o próprio Wilker dirigiu um filme protagonizado pelo personagem. Junto com o contraventor, a novela abordou o jogo do bicho de forma poética e enveredou pelo mundo do Carnaval. '''Senhora do Destino' foi um novelão de primeira. Elenco numeroso, muitas abordagens e cenas densas. É um trabalho do qual me orgulho muito'', conta o diretor de núcleo Wolf Maya.
Ao longo de 221 capítulos, em tramas secundárias, Aguinaldo falou sobre o amor lésbico de Jennifer e Eleonora, de Bárbara Borges e Mylla Christie, contou os dissabores de Rita, de Adriana Lessa, mulher que era frequentemente espancada pelo marido e ainda se apossou das controvérsias políticas que rondam as cidades da Baixada Fluminense, com a conduta errática de Reginaldo e Viviane, dupla corrupta vivida por Eduardo Moscovis e Letícia Spiller.
Fugindo da sinopse inicial, retratou o Mal de Alzheimer com a figura da elegante Baronesa Laura, de Glória Menezes. ''Minha personagem não tinha nada de interessante. Educadamente, pedi para sair da trama. Até que Aguinaldo me surpreendeu com os rumos da Baronesa. Foi muito válido falar da doença'', conta a atriz, que lembra com alegria dos bastidores da trama, onde dividia muitas cenas com o saudoso Raul Cortez e Marília Gabriela.
Presente com diferentes personagens nas fases da novela, a jornalista conta que teve receio de não dar conta de ter um papel de destaque em uma novela das nove. Na segunda fase, na pele de Guilhermina, Marília deu vida à oponente de Maria do Carmo na conquista do jornalista e ativista Dirceu. ''Já tinha feito muitas participações em novelas, mas nenhuma foi como em 'Senhora do Destino'. Tomei gosto em mostrar meu lado atriz na tevê'', conta.