ENTREVISTA

Zizek reescreve obra mais famosa e solta o verbo contra Neymar, Putin e a democracia liberal

Popstar da filosofia, esloveno atualizou o seu 'O sublime objeto da ideologia', que ganha nova edição no Brasil

Slavoj Zizek: o 'Elvis Presley da teoria cultural' teme pelo futuro do mundo Slavoj Zizek: o 'Elvis Presley da teoria cultural' teme pelo futuro do mundo  - Foto: Divulgação

A conversa com o Globo é via videoconferência, e Slajov Zizek já vai logo avisando:

— Se for gravar, não use trechos do vídeo, pois estou parecendo e me sentindo um pedaço de merda — explica, de sua casa na Ljubljana, capital da Eslovênia. — Ou, como dizem em esloveno, é como se alguém tivesse me empurrado para fora do planeta.

Culpa de uma alergia, que o deixou cansado, mas não afetou o bom humor e a habitual prolixidade daquele que costuma ser chamado de “o mais perigoso pensador do Ocidente”, ou ainda “o Elvis Presley da teoria cultural”.

 

A fama de estrela pop começou a surgir em 1989, com o seu primeiro livro publicado direto em inglês, “O sublime objeto da ideologia”. Considerado por muitos o trabalho mais importante do filósofo e base do seu pensamento por muitas décadas, a obra volta às livrarias do país pela Civilização Brasileira, agora completamente reescrita. Para Zizek, ela precisava ser atualizada, pois não refletia os novos dilemas e as transformações do mundo de hoje.

O livro ia na contramão do clima político de sua época, quando se decretava o fim das ideologias. Em um xadrez teórico que mistura psicologia (Jacques Lacan), filosofia (Hegel), teoria (Marx) e teologia (cristianismo), o comunista Zizek reposicionou a ideologia para além de um sistema de valores e inverteu a metáfora dos “óculos ideológicos”. A ideologia seria, segundo ele, o estado natural do homem — para ver além dela, deve-se colocar as lentes, não tirá-las.

Trinta e cinco anos depois, “O sublime...” ainda é uma das obras mais populares do midiático pensador, que já foi até apontado como affair de Lady Gaga (boato nunca confirmado). Figura recorrente na TV e no TikTok (ele não tem conta na rede social, mas vídeos com suas falas somam mais de cem milhões de visualizações), Zizek agrada plateias falando sobre os mais variados assuntos, sempre com muitas referências da cultura pop — a sua marca. Nesta entrevista, ele vai de Ucrânia a Neymar, passando por eleições francesas e a sua visão do cristianismo.

Por que reescrever “O sublime objeto da ideologia”? O que mudou no mundo desde a sua publicação?
Você não tem idade para lembrar da época dos vinis. Lançavam álbuns com as 15 melhores músicas de uma banda. Chamavam isso de “best of”. Era o que o livro pretendia ser quando saiu (uma reunião das suas principais ideias). Só que o texto original não alcança os problemas sociais, econômicos e até existenciais de hoje. Você sabe que a natalidade está caindo terrivelmente? As pessoas não querem mais ter filhos, alguns por medo do avanço do extremismo.

E você, o que teme?
Mais do que o avanço da extrema-direita, temo o perigo do isolamento cultural na vida cotidiana. Um amigo francês me disse que há uma geração mais jovem que não está mais interessada em nenhum grande deus, ou nem mesmo em sexo. Em suma, a ideia é apenas ganhar o suficiente e sobreviver. Para uma população se reproduzir e seguir em frente, é preciso ter um pouco mais do que isso. E essa despolitização não tem nada ver com o estilo de vida. A Espanha e a Itália são o segundo e o terceiro países com menor taxa de natalidade na Europa. A Itália com toda aquele amor pela boa comida e pelo sexo, quem iria imaginar!

Como enfrentar tudo isso?
É uma crise mais profunda, que não pode ser adequadamente tratada com o sistema dominante atual. A democracia liberal como a conhecemos está morrendo e não dá mais conta para fazer frente a isso. Não tenho uma fórmula pronta, mas precisamos de uma cooperação internacional mais forte e de um planejamento a longo prazo. Se tivéssemos uma ordem global racional, chineses poderiam se mudar para partes da Sibéria onde as populações estão caindo. Mas tenho certeza de que no Brasil vocês têm problemas ainda maiores.

Talvez.
Aliás, sabe o que quero lhe falar? Meu filho ama futebol e descobriu uma coisa que o deixou em choque. É verdade que o melhor jogador de futebol de vocês, Neymar, é pró-Bolsonaro?

Sim, ele o apoiou.
Neymar perdeu muitos pontos agora. Meu Deus.

Você é popular no TikTok...
Nunca sequer entrei lá, mas sei que publicam clipes de entrevistas minhas.

E em um desses vídeos você fala sobre a insistência da esquerda no debate moral. Por que isso é um problema?
A esquerda alienou as pessoas com seu debate moral, pelo menos no Ocidente. Estou falando da cultura do cancelamento, o politicamente correto, e assim por diante. É uma catástrofe. Porque a maioria das pessoas “comuns”, por assim dizer, experimenta tudo isso com uma espécie de superego estúpido, em que você sempre tem que se perguntar se é não racista o suficiente, e assim por diante.

Quando a esquerda aliena a pessoa “comum”, a direita pega esse lugar?
Hoje, quando surgem novas figuras de poder, mesmo que ajam como figuras cristãs, como Jair Bolsonaro, Donald Trump e outros, elas são abertamente obscenas. Se alguma vez houve um presidente pós-moderno, esse é Donald Trump. Ele é o verdadeiro pós-modernista que zomba de tudo, relativiza tudo. A esquerda tem essa longa tradição de que, para ser progressista, você tem que ser marginal, de que os direitos dos gays são mais importantes, e assim por diante. Mas e os medos e a inquietação das pessoas comuns? A esquerda não sente isso.

Mas a esquerda francesa não deu uma resposta adequada ao se unir e ajudar a conter o avanço da extrema direita na eleição legislativa do último domingo?
O lado bom é que houve um alívio, no sentido de que aconteceu algo que parecia impossível. Foi um milagre em si. Temos que lembrar que todas as pesquisas diziam que a única dúvida era se a extrema direita conseguiria a maioria absoluta ou acabaria apenas como o partido mais forte (na Assembleia Nacional). E eles acabaram em terceiro lugar. Mas não acho que a esquerda tenha um programa viável e acredito que a (líder da extrema direita) Marine Le Pen pode voltar mais forte. Para mim, o (líder da extrema esquerda) Jean-Luc Mélenchon, que acompanho há anos, está blefando.

Por quê?
Mélenchon e Marine Le Pen compartilham duas características cruciais: são contra uma maior unidade da União Europeia, portanto, um estado soberano mais forte. E também defendem menos dinheiro para a Ucrânia. Este talvez seja o sinal mais triste de desorientação da esquerda. A extrema direita e a esquerda radical geralmente usam essa argumentação vulgar de que a defesa da Ucrânia é alimentada apenas pelo interesse da Otan, da indústria bélica. Eu conheço ucranianos, eles sofrem terrivelmente. Eles estão com muito medo, sabem o que está por vir.

Como as pessoas reagem ao vê-lo sair em defesa da unidade europeia?
Eu me considero um comunista moderado e conservador. Não tenho muita estima pela realidade da Europa, mas não entendo por que está na moda ser contra o eurocentrismo. A Europa já é uma Liga B do mundo. Trump, Putin, a América Latina, todo mundo é contra a Europa. E precisamente aqueles que querem ser impérios há séculos estão agora assumindo a pior parte do legado europeu, que é a era das nações fortes. Sim, a Europa é hipócrita, mas para mim é melhor isso do que a brutalidade direta. Pelo menos me deixa um espaço para cobrar: “Vamos levar mais a sério o que você está dizendo?” Porque na Rússia de Vladimir Putin ou na China não há hipocrisia, mas há um poder brutal. E agora a última pergunta, porque estou cansado.

Você acabou de lançar nos EUA um livro sobre como ser um verdadeiro materialista, ou melhor, um “cristão-ateísta” (“Christian atheism: how to be a real materialist”, ainda sem edição no Brasil). O que é isso exatamente?
Penso de uma maneira mais existencial. O foco do cristianismo é Cristo na cruz, não os valores. Como disse Hegel (1770-1831), de certa forma, Deus morre e você fica livre. É por isso que o Espírito Santo é, para mim, a primeira forma de um partido comunista. Significa uma comunidade igualitária, que você encontra apenas no cristianismo. Em grupos com o hinduísmo, a religião está sempre baseada em uma estrutura social orgânica que, na Índia, por exemplo, deve ser formada por hierarquias de castas. No momento da cruz, nós (cristãos) fomos deixados a nós mesmos. Somos uma comunidade de crentes.

Muito obrigado pela entrevista.
Obrigado a você, e deixe eu lhe lembrar de algo importante. Bem, estou zombando de mim mesmo. Eu sou um bom stalinista, o que significa isto: eu lhe dou pleno direito de reescrever, cortar minhas confusões. Seja o meu bom censor stalinista e não me faça soar como o Joe Biden.

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