EUROPA

Feministas protestam na França contra avanço da extrema direita a uma semana das eleições

Aliança do Reagrupamento Nacional (RN), de Marine Le Pen, lidera as pesquisas com 36% das intenções de voto; nos últimos anos, legenda apostou na moderação do discurso para atrair o voto feminino

Feministas protestam na FrançaFeministas protestam na França - Foto: Phillipe Lopez/AFP

A apenas uma semana do primeiro turno das eleições legislativas na França, milhares de pessoas foram às ruas neste domingo protestar contra a extrema direita, denunciando o perigo do partido Reagrupamento Nacional (RN) para os direitos das mulheres. A manifestação acontece no momento em que o RN — que lidera as pesquisas de intenção de voto — atrai cada vez mais o eleitorado feminino, após esforços de moderação da sua líder política, Marine Le Pen.

— Marine Le Pen foi bem-sucedida em seu esforço para desdemonizar seu partido, mas não nos deixaremos enganar — disse Chloe Rougeyres, 32 anos, à Bloomberg, enquanto segurava um cartaz em oposição a Jordan Bardella, escolha do partido para primeiro-ministro caso conquiste a maioria no Parlamento. — O problema é que ele pode enganar algumas pessoas que não estão acompanhando a política de perto.
 

Em Paris, 75 mil pessoas marcharam neste domingo, apontam os organizadores, após a convocação de mais de 200 associações, ONGs e sindicatos. Segundo as autoridades, porém, o número de manifestantes na capital foi 13 mil. Ao todo, 53 protestos foram contabilizados ao redor do país, reunindo 33 mil manifestantes, de acordo com a polícia francesa.

Vestindo roxo, cor emblemática do movimento feminista, manifestantes denunciaram o "feminismo de fachada" da extrema direita, com ataques diretos ao RN. Os cartazes exibiam dizeres como "Vá votar antes que ele se torne um fascista", "O machismo é a cama do fascismo", e até alertas diretos como "Acorde, amigo, eles enlouqueceram".

— Toda vez que a extrema direita chega ao poder em algum lugar, ela ataca o direito ao aborto, e não haverá exceção francesa — disse Sarah Durocher, presidente da organização Planejamento Familiar, à imprensa.

Anos últimos anos, Le Pen empreendeu esforços consideráveis para que o partido se desvinculasse dos comentários de seu pai e cofundador do RN, Jean-Marie Le Pen, vistos por muitos como misóginos, antissemitas, racistas e homofóbicos. Entre suas ações, Le Pen expulsou seu pai do RN e se rebatizou como uma "feminista que não é hostil aos homens".

Le Pen também alterou sua posição sobre o aborto e apoiou o projeto de lei do presidente francês Emmanuel Macron para consagrar o direito ao procedimento na Constituição, aprovado este ano. No entanto, 12 de seus correligionários votaram contra a medida e outros 14 se abstiveram, em um total de 88. No Parlamento Europeu, os deputados do RN também foram contra ou se abstiveram de votar em propostas relativos ao direito ao aborto e contra o assédio.

Nas urnas, no entanto, o trabalho de Le Pen parece ter surtido efeito. Segundo uma pesquisa da Ipsos, o número de mulheres que votaram no RN nas eleições para o Parlamento Europeu saltou de 10% em 2019 para 30% em 2024.

Para Alix, de 29 anos, que se recusou a fornecer seu sobrenome, a liderança do RN nas pesquisas não é motivo para desistir.

— O meio feminista está entre as últimas franjas da população em que eles ainda não entraram totalmente — disse ela no protesto à AFP. — Não vejo como Marine Le Pen poderia ser uma feminista.

Bardella, candidato a premier francês do RN, também vem tentando atrair o voto feminino.

— Serei o primeiro-ministro que garantirá infalivelmente os direitos e as liberdades de todas as meninas e mulheres da França — disse ele em um vídeo publicado nas redes sociais na semana passada. — A igualdade entre homens e mulheres, a liberdade de se vestir como quiser, o direito fundamental de controlar seu próprio corpo, esses são princípios inegociáveis.

De acordo com duas pesquisas publicadas neste domingo, o Reagrupamento Nacional (RN) e seus aliados têm entre 35,5 e 36% das intenções de voto. A aliança inclui o conservador Os Republicanos (LR), cujo presidente, Éric Ciotti, havia sido expulsado por colegas após propor a união com RN, mas foi restituído ao cargo por determinação da Justiça.

Bardella tem dito repetidamente que só concordaria em ser primeiro-ministro se seu partido obtiver todas as 289 necessárias para maioria absoluta, um cenário que parece difícil, embora as projeções apontem a liderança da sua coalizão, uma vez que a votação acontece em dois turnos. Após o pleito no próximo domingo, os franceses voltarão às urnas no dia 7 de julho.

O temor de uma vitória do RN levou a oposição de esquerda a estabelecer a Nova Frente Popular, uma aliança liderada por socialistas, ecologistas, comunistas e o partido A França Insubmissa (LFI, em francês). A coalizão aparece em segundo lugar nas pesquisas, com até 29% dos votos.

A aliança centrista de Macron tem 20% das intenções, segundo levantamentos recentes, e a popularidade do presidente está em queda livre, com 28% de aprovação — embora não tenha atingido o nível registrado durante a crise dos 'coletes amarelos' em 2018.

A decisão inesperada do presidente francês de convocar eleições legislativas antecipadas após o fracasso de sua coalizão nas eleições europeias de 9 de junho diante da extrema direita, que obteve o dobro dos votos dos centristas, provocou um "terremoto político" de consequências incertas, segundo analistas. Ele defendeu a dissolução da Câmara Baixa como uma opção necessária para "esclarecer" o panorama político.

Macron, no poder desde 2017, enfrenta dificuldades para concretizar seu programa de governo desde que perdeu a maioria absoluta na Assembleia Nacional nas eleições legislativas de junho de 2022. Com mandato até 2027, o líder francês descartou a possibilidade de renunciar, independente do resultado das legislativas, prometendo, neste domingo, "trabalhar até maio de 2027".

"O governo que virá, que refletirá necessariamente o voto de vocês, espero que reúna republicanos de diversas sensibilidades que terão a coragem de opor-se aos extremos", escreveu o presidente em uma carta aos franceses publicada pela imprensa.

O chefe de governo da Alemanha, o chanceler Olaf Scholz, expressou neste domingo sua preocupação com a possibilidade de chegada ao poder da extrema direita.

— Espero que os partidos que não são [Marine] Le Pen, por assim dizer, tenham sucesso nas eleições. Mas isso tem de ser decidido pelo povo francês — declarou ao canal ARD.

O jornal Le Monde publicou neste domingo uma carta de 170 diplomatas e ex-diplomatas. No texto, o grupo alerta que uma vitória do RN "enfraqueceria a França e a Europa" no momento em que a "guerra está ao nosso lado".

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