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Venda não autorizada de dados pessoais preocupa 77% dos latino-americanos, aponta pesquisa

Entenda porquê os latino-americanos têm receio em compartilhar suas informações pessoais na Internet

Foto: Unsplash

Seja para finalizar uma compra online ou para fazer um curso, são inúmeras as circunstâncias que obrigam o usuário a expor seus dados pessoais  online e, muitas delas, sem consentimento. 

Nesse cenário, 77% dos latino-americanos estão preocupados com a venda não autorizada de suas informações, segundo a pesquisa Cibersegurança: Proteção de Dados e Inteligência Artificial na América Latina feita pela Sherlock Communications

Em um mundo cada vez mais virtual e com a ascensão da Inteligência Artificial (IA), são diversos os desafios para combinar a inovação e evolução tecnológica com a segurança cibernética. 

À medida que nos inserimos na Internet das Coisas (IoT), nossos dados  estão cada vez mais vulneráveis, assim como a insegurança de seu compartilhamento indevido por terceiros.

Nesse contexto, a Sherlock Communications elaborou um e-book baseado em uma pesquisa feita com mais de 3.000 pessoas de toda a América Latina, que explora perspectivas regionais em relação a essas questões. 

O objetivo deste estudo foi observar como diferentes culturas enxergam e lidam com assédio cibernético, exposição de dados pessoais e ferramentas de IA. 

Por que a América Latina?

A América Latina encontra-se num ponto de inflexão, ou seja, na medida que enfrenta desafios, encontra um solo fértil para oportunidades em relação à cibersegurança. 

Com o crescimento da inovação digital, os países da região estão cada vez mais interconectados, aumentando possibilidades de mercado, mas também as vulnerabilidades no que diz respeito ao vazamento de informações privadas.

No primeiro semestre de 2023, diversos países da América Latina foram alvo de mais de 215 bilhões de tentativas ataques cibernéticos, segundo dados do Relatório de Ameaças Cibernéticas 2023 da SonicWall. 

Os governos latino-americanos estão cada vez mais conscientes da importância da cibersegurança e estão desenvolvendo e melhorando as suas estratégias nacionais nesse quesito. 

A criação de regulamentações específicas para a proteção de dados - como a Lei Geral de Proteção de Dados, no Brasil - e para o uso ético da IA, podem ser observadas na região. No entanto, a sua implementação efetiva ainda é um desafio. 

Para entender melhor as perspectivas regionais sobre o compartilhamento de dados pessoais e o uso de IA, a Sherlock Comms entrevistou 3.444 pessoas na Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru. 

O questionário trouxe diversos temas, desde a divulgação de informações pessoais e privacidade digital, até a confiança na capacidade de empresas e governos em gerenciar seus dados de forma segura. 

A pesquisa exclusiva também identificou as estratégias e medidas que os indivíduos fazem uso para proteger sua presença online, bem como suas experiências com atividades criminosas e suas opiniões a respeito do impacto crescente da IA em suas vidas cotidianas.

Cautela ao compartilhar dados pessoais

O estudo apurou que a maioria dos latino-americanos é cuidadosa no momento de compartilhar suas informações. Cerca de 41% dos entrevistados admitiram que limitam a quantidade de dados pessoais que cadastram, enquanto 46% só o fazemquando confiam na segurança do armazenamento e uso dessas informações. 

O Peru e a Colômbia são os países mais cautelosos. Aproximadamente 50% dos entrevistados compartilham dados apenas quando têm certeza de que as informações serão armazenadas com segurança.

A pesquisa também apontou que a preocupação com o roubo de identidade é significativa nos países da América Latina, visto que 45% dos entrevistados afirmaram que compartilham menos detalhes privados para evitar o seu roubo. 

Privacidade nas redes sociais 
A privacidade nas redes sociais é importante para mais de um terço dos entrevistados - cerca de 38%. Eles afirmaram que garantem que suas contas sejam privadas e restringem o acesso ao seu conteúdo. 

Apesar da preocupação com o roubo de dados, menos de um quarto dos consultados estaria mais disposto a compartilhar informações pessoais se as empresas fossem transparentes sobre o uso dos dados. Cerca de 20% disseram que evitam compartilhar dados, mesmo que isso comprometa a personalização dos serviços e uma experiência online aprimorada. 

Vale destacar que entre os entrevistados, 55% afirmaram que deixariam de usar os produtos e serviços de uma empresa se ela vazasse suas informações pessoais e aconselhariam outros a fazer o mesmo. 

Os argentinos foram os mais rígidos nas respostas: 63% deles prometeram boicotar e instigar familiares e amigos a fazerem o mesmo.  Apenas 4% de todos os participantes disseram que um incidente desse tipo não mudaria sua opinião sobre a empresa.

As pessoas estão mais atentas e desconfiadas 

A maioria dos entrevistados, 77% deles, está preocupada com a venda de seus dados sem consentimento. A aflição também diz respeito ao armazenamento em nuvem, com 74% apreensivos com a forma como suas informações podem ser usadas. 

Embora 50% dos respondentes estejam razoavelmente satisfeitos com as informações de proteção de dados pessoais nos sites, 67% disseram que é difícil encontrar essas informações nos perfis das empresas. Além disso, mais de 60% afirmam que tais informações tendem a ser escritas em uma linguagem confusa. 

A queixa de linguagem confusa dos serviços de proteção de dados dos governos também foi observada nas respostas. Mais de um terço dos entrevistados - 38% em toda a América Latina - deseja políticas de privacidade fáceis de entender.

Apenas 33% dos respondentes na região sentem que seu governo os protege de forma eficaz com leis de proteção de dados. Por volta de 39% mexicanos concordam que seu governo os protege, enquanto apenas 29% dos chilenos compartilham a mesma opinião.

Assédio virtual e importunação por serviços de telemarketing

O assédio virtual se caracteriza como a importunação, intimidação, perseguição, ofensa ou hostilização do usuário na internet.

Quando se trata de assédio, 40% dos entrevistados na América Latina relataram receber chamadas silenciosas de números desconhecidos, enquanto 38% relataram receber mensagens de texto suspeitas que os incentivaram a clicar em um link. 

Na Argentina, apenas 29% receberam chamadas silenciosas e apenas 28% receberam mensagens com links de phishing. No Peru, 48% dos entrevistados receberam chamadas silenciosas, enquanto as mensagens de phishing são mais comuns no Chile.

Enquanto 24% dos consultados foram constatados por fraudadores se passando pelo seu banco, e 26% são bombardeados com ofertas não solicitadas de serviços via texto, os colombianos estão em uma situação pior do que os demais(30% e 36%, respectivamente). 

Em geral, outros problemas comuns de assédio incluem tentativas de login não autorizadas, anúncios pop-up, e roubo de telefone ou dispositivo. 

A frequência de chamadas inconvenientes também é um problema para os latino-americanos. Mais da metade de todos os entrevistados (55%) não atende mais chamadas de números não identificados por conta do número de chamadas incômodas. 

No Brasil, mais de 30% disseram perderchamadas importantes porque mantêm seus telefones no modo silencioso para evitar essas interrupções. 

Proteção de dados pessoais no Brasil

O Brasil está na linha de frente quando se trata do enfrentamento dos riscos cibernéticos e proteção de dados pessoais na era da IA. O país está trabalhando em estratégias para garantir que suas normas estejam alinhadas com padrões internacionais, enquanto também cria um espaço digital seguro. 

Ao apresentar projetos de lei e elaborar uma estratégia nacional para assegurar que a IA funcione em harmonia com os direitos humanos, privacidade e princípios democráticos, o país se torna líder na era da IA. No entanto, o Brasil se estabeleceu como um exemplo em proteção de dados muito antes das leis sobre IA. 

Em 2018, foi aprovada a estrutura legal que aborda as complexidades da privacidade de dados: a Lei Geral de Proteção de Dados nº 13.709/2018. As normas desta lei, juntamente com legislações específicas de setor, fornece diretrizes para o tratamento de dados pessoais em várias indústrias. 

A lei foi construída sobre a base estabelecida por regulamentações anteriores, como o Marco Civil da Internet e seu decreto regulamentar. Apesar desse avanço, os direitos de proteção de dados foram reconhecidos constitucionalmente como direitos fundamentais apenas em 2022. 

A aplicação e o cumprimento das leis de proteção de dados são supervisionados pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados do Brasil, que opera ao lado de outros órgãos reguladores, como o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor, garantindo um mecanismo robusto em todo o país. 

IA e dados pessoais 

Além de explorar as preocupações com a proteção de dados, a pesquisa também analisou as opiniões dos latino-americanos sobre ferramentas de IA, como o ChatGPT. Em torno de 26% participantes usam ferramentas de IA diariamente para o trabalho, enquanto 17% usaram IA para melhorar seus currículos. 

Mais de 40% dos consultados demonstraram o desejo de aprender mais sobre IA e suas aplicações, enquanto apenas 7% não estão interessados em IA. 

Os resultados da pesquisa apresentam um panorama do cenário atual da proteção de dados pessoais e da regulamentação da IA em toda América Latina.

Apesar dos esforços dos governos para melhorar a segurança dos dados pessoais e a ética aplicada à IA, ainda há uma disparidade substancial entre esses esforços e as experiências reais dos consumidores na América Latina que precisam ser enfrentadas.    

As informações contidas neste artigo não refletem a opinião do Jornal Folha de Pernambuco e são de inteira responsabilidade de seus criadores. 

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