POLÍCIA FEDERAL

Fotos deram pistas à PF no caso das joias: entenda como investigadores rastrearam alvos do inquérito

Foram utilizadas as informações dos chamados metadados de celulares, como o histórico de geolocalização registrado nos aparelhos

Jóias que são alvos da operação da PF. Na fofo, Relógio Patek PhillippeJóias que são alvos da operação da PF. Na fofo, Relógio Patek Phillippe - Foto: Reprodução

A Polícia Federal usou uma série de informações registradas nos celulares e computadores dos investigados pela venda e recompra de presentes recebidos pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em viagens oficiais para rastrear seus passos.

A partir da apreensão dos aparelhos, foi possível acessar os chamados metadados, como o registro das fotos armazenadas e até a geolocalização capturada pelos arquivos gerados com essas imagens.

Essa tecnologia foi empregada, por exemplo, durante a análise dos dados recuperados no telefone do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro.

Em um dos arquivos, os metadados mostram que uma foto de um produto da empresa Chopard foi criada em 19 de dezembro de 2022, ou seja, ainda durante o mandato do ex-presidente e antes de seu embarque para os Estados Unidos, dias depois.

“Trata-se, aparentemente, da parte de um documento que apresenta dados com as especificações do “KIT OURO ROSE”, entregue ao então ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, após viagem a Arábia Saudita, em outubro de 2021, com carimbo da Chopard Boutique – Attar United Co. Ltd. Panorama Mall – Thalia Street – Riyadh”, destaca a PF, em relatório encaminhado ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Assim como Bolsonaro, Cid e Albuquerque foram indiciados no inquérito por crimes como peculato (apropriação de bens públicos), associação criminosa e lavagem de dinheiro. A investigação apontou que eles e outras nove pessoas atuaram para desviar bens que equivalem a R$ 6,8 milhões. Entre as peças negociadas, estaria esse kit da Chopard avaliado em mais de US$ 113 mil.

Nesta segunda-feira, a defesa de Bolsonaro classificou o inquérito de "insólito" e afirmou que o ex-presidente "em momento algum pretendeu se locupletar ou ter para si bens que pudessem, de qualquer forma, serem havidos como públicos".

Imagens desse mesmo conjunto de joias também foram encontradas no laptop de Mauro Cid. As imagens correspondem, segundo a PF, à Quadra Residencial dos Generais no Setor Militar Urbano em Brasília, onde fica a residência do oficial do Exército.

Pesquisa no Waze
Em 13 de junho de 2022, os investigadores também identificaram, pelos metadados, que Mauro Cid pesquisou no aplicativo Waze um endereço na cidade de Willow Grove, estado americano da Pensilvânia. Trata-se de um shopping center, que abriga a loja especializada em vendas de relógios novos e usados Precision Watches, onde também foram negociadas algumas das peças de alto valor.

O documento da PF também contempla fotos de um kit em outro branco, avaliado em mais de US$ 93 mil, com seus respectivos certificados. Essas imagens trazem coordenadas que correspondem ao endereço residencial utilizado pelo pai de Mauro Cid, o general Mauro Cesar Lourena Cid, enquanto esse permaneceu na Flórida, nos Estados Unidos.

Também no laptop de Mauro Cid, a PF identificou fotografias de um relógio Patek Philippe também negociado pelo grupo. Algumas das informações, armazenadas na nuvem relacionada ao email pessoal do oficial mostravam a imagem da peça recortada de uma pesquisa da internet, onde é possível ver o valor de US$ 53 mil.

Segundo as investigações, os metadados dessa imagem revelam que os arquivos foram enviados a um contato cadastrado como “PR Bolsonaro” em 16 de novembro de 2021. Na data, ambos estavam em viagem oficial em Manama, capital do Bahrein.

O inquérito também apontou que, no telefone apreendido com ex-assessor Marcelo Câmara, foram encontrados alguns dados que podem ter relação com o retorno de um dos kit de joias ao Brasil. Os arquivos dos dias 18 e 19 de março de 2023 são oriundos do Waze e possuem geolocalização associada à procura e navegação de endereços.

A navegação tinha como destino o “Terminal C Service Road”, no Aeroporto de Orlando. Naquela mesma data, o também assessor e advogado de Bolsonaro Fabio Wanjgarten estaria chegando aos Estados Unidos, a partir de Guarulhos.

A compra de sua passagem foi realizada após a decisão do Tribunal de Contas da União (TCU) para devolução das joias em cinco dias úteis, prazo que venceria na semana seguinte, em caso de não renovação.

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