FOLHA GASTRONOMIA

A Lei Áurea

Lei Áurea foi assinada em 13 de maio de 1888Lei Áurea foi assinada em 13 de maio de 1888 - Ilustração/Greg

Ontem, sexta-feira, foi 13 de maio. Aprendemos na escola que, neste dia, em 1888, a princesa Isabel, num ato generoso, assinou a lei Áurea quando “É declarada extinta desde a data desta Lei a escravidão no Brasil” (Lei nº 3.353, art. 1º). Vimos na Biblioteca do Vaticano um bilhete dela para seu pai, o Imperador Pedro II.

Perguntava pela saúde do pai e comunicava que havia assinado a Lei Aurea. Mas a história não foi bem assim. Havia, nesse tempo por todo o país, rebeliões de escravos e formação de quilombos, ameaçando o governo. Éramos o único país independente do ocidente a ter escravos. E o papa Leão XIII, oito dias antes da assinatura dessa lei, publicou carta exigindo a total libertação desses escravos no Brasil.

É bom lembrar que a escravidão mereceu da Igreja Católica, durante séculos, um apoio decisivo. Por representar força de trabalho capaz de produzir riquezas; e, também, pela crença de que só assim aqueles nativos salvariam suas almas com a fé no Cristo que lhes era imposto. Isso fez através de sucessivas bulas: Dudum Cum (31 de julho de 1436), Rex Regnum (8 de setembro de 1436) e Preclaris Tuis (25 de maio de 1437) do papa Eugênio IV; e Romanus Pontifex Celestis Clavinger (8 de janeiro de 1454), do papa Nicolau V. Essa cumplicidade entre fé e interesses econômicos permitiu uma colonização “em nome de Cristo”. Só depois, e bem aos poucos, essa posição começou a mudar. 

Muitos desses escravos com o tempo foram alforriados. Alguns deles sobreviveram por aqui mesmo, com tabuleiros equilibrados na cabaça, vendendo comidas nas esquinas de ruas ou pátios das igrejas – abará, acaçá, acarajé, alfenim, canjica, cuscuz, mocotó, pamonha, vatapá.    Outros acabaram repatriados. E levaram, junto à paz de quem volta às raízes, também jeitos diferentes de fazer antigas receitas – por seus descendentes ainda hoje conhecidas como “comida de brasileiro”.

Levaram mandioca – embora lá sem a importância que tem até hoje, por aqui. Milho também, primeiro para a Guiné, onde ficou conhecido como “trigo da Guiné”. Dele até hoje fazem papa, pirão (xima, em Moçambique; fungi ou guindele, em Angola). Ainda caju, amendoim, goiaba, batata. Em troca nos deixaram muito. “A escravidão ajudou a formar um Brasil mais forte em todos os campos”, definindo, entre nós, “a economia, a organização social e estrutura de classes, o Estado e o poder político, a própria cultura”, segundo Evaldo Cabral de Mello. Influenciaram artesanato, canto, dança, festas populares, música, religião.

E, sobretudo, a culinária. Com rebeldia e criatividade, foram misturando ingredientes, temperos, sabores, técnicas e fazeres das três culturas. Transformando receitas tradicionais. Ou criando, novas. Mas sempre usando e valorizando produtos da terra. Com esses escravos aprendemos sobretudo o sabor da alegria. Que a mesa, para aquela gente, acabava sendo sempre um momento de festa, em meio a tanta dor. Com pratos se misturando a cantos, danças, batuques, zoadas, chocalhos e saudades.

Papa Francisco, com sua grande sabedoria, nos ensina: “A escravidão não é algo de outros tempos – mas tem profundas raízes e se manifesta ainda hoje de várias formas: tráfico de seres humanos, exploração do trabalho por meio de dívidas, exploração de crianças, exploração sexual e trabalho doméstico forçado são algumas das muitas formas. Cada uma delas é mais grave e desumana que a outra”. E continua: “É preciso lutar contra as formas modernas de escravidão”. Só assim honraremos a memória de todas as vítimas. 

Receita:

ABARÁ

Ingrediantes:
1 kg de feijão fradinho
1 kg de cebola
300 g de camarão seco
Sal 
1 xícara de azeite de dendê
Folhas de bananeira

Preparo:
    • Bata o feijão rapidamente, no liquidificador. Deixe de molho, por 6 horas. Escorra, lave e retire toda a casca. Passe esse feijão no moedor de carne (ou processador).
    • Coloque a massa do feijão em um caldeirão. Junte cebola ralada, camarão seco (moído), sal e azeite de dendê. Bata bem. Enrole porções dessa massa em folhas de bananeira e cozinhe no vapor.

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